sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O DONO DA VERDADE




O dono da verdade é um senhor disfarçado de menino, vive isolado num mar de idéias revoltosas e surdas e mudas e cegas e presas entre si, idéias que teimam em bater cabeça nas paredes das idéias que outros tentam pensar. Verdades anunciadas em calçadas e praias desertas, expostas ao furor do louco e tenebroso sol das vaidades humanas.
O dono da verdade mora no tão longe, num lugar desconhecido e habitado por cada um de nós, lá onde ninguém teima em querer passear, rodeado de verdades novas e frescas, no terreno das velhas verdades estrumadas com a inutilidade que só as verdades possuem quando não são devidamente aproveitadas, lá ele caminha solitário, andante, errante, cumprindo o velho hábito de verificar o desuso de cada verdade. O dono da verdade ronda seu mundo por todo o dia, certificando-se que todas as verdades estarão prontas e disponíveis quando for necessário usá-las adequadamente.
O dono da verdade age com o olho do furacão e ele tudo vê, tudo sabe, tudo faz, tudo aprende e tudo ensina, ele tudo entende e tudo reclama e tudo corrige, tudo ele comenta e tudo ele controla, tudo ou quase tudo é seu ou é fruto de sua doação, de tudo ele participa, tudo ele observa e consente com tudo ou quase tudo que lhe apraz. O dono da verdade é tão intenso e tão centralizador, tão senhor e verdadeiro, afinal é sua (dele) a verdade que se pretende ser absoluta sobre os demais mortais.
O dono da verdade é tão nobre, cansativo e entedioso, tão verdadeiro que parece ser um grande fantoche, tão senhor e tão cheio de verdades e tão redundante e grandiloquente, que na maioria das vezes vive assim num descompasso entre as palavras e o fervilhar da realidade. Termina por viver numa metade de si e na metade dos outros, uma ponte erguida onde não há estrada alguma.
“As verdades são ilusões que esquecemos serem ilusões” (Nietzsche)

(Antonio Carlos)

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