terça-feira, 14 de junho de 2011

ANTES DO NASCER DO SOL

Era meio dia no inferno das tuas emoções, eu sei por que eu te vi bem na hora em que choravas pelas ruas descalças do teu coração corroído de dor e medo. Era uma porta entre a tragédia e o circo, teu corpo era farrapo de álcool e sujeira humana, um homem cercado de vazio e uma mulher inebriada pela ausência de sentimentos. Assim sempre que me falavam de mortos vivos, lembrava-me dessa imagem o casal perdido, um elo entre a fuga e o abandono. Quase uma imagem de poesia macabra. Bem cedo antes do sol nascer, os corpos foram encontrados, resgatados nas docas, um olhar de crianças perdidas, onde encontrar os pais daquelas almas órfãs, ruas descalças e logo adiante o cemitério aguardava seus novos hóspedes, vidas despercebidas de amor, tudo tão rápido, antes do sol, antes da vida, era o fim das emoções. Um doce final fúnebre marcado pelo distanciamento dos vivos, apenas o silêncio gélido e mórbido que se apossava de todas as bocas caladas pelo toque algoz da morte... Era apenas um dia cercado de emoções fortes e vazias, e bem ali numa penumbra repentina jazia toda quimera dos dias, era a hora da partida, a alma foge dos corpos e a noite esfria as mãos, o corpo dorme e apodrece as emoções, era o fim da dor e, o martírio de uma incerta agonia, covas rasas e rosas ausentes, corpos jovens e uma chuva pesada que anunciava tudo ao seu redor, aos vivos a glória de viver, aos mortos a quietude ao morrer. 
Antes do nascer do sol a terra reclama seus corpos e o pó transforma a relva em vida, da dor a dor, enquanto o tempo não consome suas memórias, logo mais o sol se põe e o esquecimento do mundo não conterá uma lágrima sequer. Sobre vocês nada se sabe, nada se soube ou saberá, vê-se apenas um papel cinza e verde, manchado de digitais, chamado de obituário.

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